Ainda no escuro… (Jo 20,1-9)

Maria Madalena é a imagem da Igreja que, “ainda no escuro”, na madrugada do Domingo, insiste em buscar pelo Senhor, ainda que espere encontrar apenas um cadáver. Mas sua procura será recompensada por uma nova aurora.

Louis Bouyer comenta este Evangelho: “A narrativa da descoberta da ressurreição é o que João nos deixou da mais perfeita beleza. Sobre toda esta página reina uma atmosfera matinal. As trevas ainda envolvem a terra onde a Vida repousou no sepulcro por todo o sábado. Entretanto, desde o começo já se pressente que a Luz está próxima: o túmulo vazio nos leva a esperar por ela, os anjos a anunciam, e enfim ela surge, mas sua manifestação é tão pacífica, que de início não a percebemos”.

Este é o “jeito” de Deus. Ele jamais nos ofusca com uma luz excessiva que nos roubasse a liberdade de acolhê-la, jamais nos cega com verdades fulgurantes, mas permite que aos poucos, caminhando em um “chiaroscuro”, nos acomodemos à novidade.

“A novidade do túmulo vazio – prossegue o comentarista – emocionou os discípulos. Eles correm para lá, temendo o pior e, ao mesmo tempo, movidos por uma esperança indefinida. O bem-amado, sem dúvida mais jovem, é o primeiro a chegar. Um escrúpulo, uma delicadeza no limiar do mistério impede-o de se aproximar. Pedro ouve apenas a sua impaciência; então, o outro que o precedera até ali o segue. Ele vê e crê. Nada nos é dito sobre Pedro; é uma lembrança pessoal que João nos relata, mas nada acrescenta. O túmulo vazio é suficiente para convencê-lo. Até aqui, as Escrituras tinham permanecido obscuras para ele. Foi preciso que Jesus ressuscitasse; agora que isso aconteceu, ele encontra o que não soubera ver.”

Todos sabem que os adversários de Jesus, anciãos e sumos-sacerdotes, divulgaram o boato de que os discípulos teriam roubado o seu corpo do túmulo, na intenção de propagar a mentira da ressurreição (cf. Mt 28,12-15). No entanto, a própria narrativa dos evangelistas mostra que os discípulos tiveram dificuldade em acreditar na ressurreição, pois isto ia muito além de suas próprias expectativas. Mesmo diante do Ressuscitado, aquela presença lhes parecia impossível (cf. Lc 24,38-41).

Desde então, a Igreja compreendeu que estava diante do ponto de apoio de sua fé. Paulo o disse de modo definitivo: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamento, e sem fundamento é também a vossa fé”. (1Cor 15,14)
Orai sem cessar!

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.