Ai de ti! (Lc 10,13-16)

De Jesus, o manso cordeiro de Deus, a gente só esperaria por bênçãos, nunca por maldições. No entanto, aí estão as suas palavras fulminantes dirigidas a Corazim e Betsaida. Nem mesmo sua cidade de adoção, Cafarnaum, escapa dessas cominações.

Jesus se dirige a um auditório de judeus, os quais conheciam muito bem o Antigo Testamento, onde aparecem cidades que foram ricas e famosas, mas acabaram em ruínas. Na passagem paralela, no Evangelho de Mateus (11,24), Jesus citou uma delas: Sodoma. Em Gênesis 19, narra-se a destruição de Sodoma, sob o fogo do céu, devido à corrupção generalizada dos costumes de sua sociedade.

É fácil imaginar a reação de seus ouvintes: aquilo que devia ser um apelo à conversão acaba por acirrar ainda mais os ânimos contra Jesus. Não raro, o convite à mudança de vida é ouvido em um movimento de defesa, quando os corações endurecem ainda mais…

Jesus atravessara estradas e aldeias, pregara nas esquinas e nos pórticos do Templo. Mais ainda: não economizara os “sinais” que poderiam abrir as mentes e os corações, curando os doentes, libertando os possessos e anunciando a misericórdia de Deus. Tudo em vão.

Por isso a observação do Mestre: cidades pagãs, verdadeiros símbolos de impureza, como Tiro e Sidônia, teriam voltado o coração para Deus se tivessem presenciado os mesmos milagres. Os judeus daquele tempo tinham sido o alvo preferencial da mensagem divina, mas não a acolheram.

Santo Agostinho escreveu: “Temo o Deus que passa e não volta”. Ou seja, existe um momento da Graça de Deus, e nós corremos grande risco quando não aproveitamos essa oportunidade especial que a misericórdia divina nos oferece.

Também nós, nascidos e criados em uma sociedade com raízes cristãs, somos alvo da “preferência” do Céu. Temos a Palavra de Deus, hoje impressa em centenas de idiomas, os Sacramentos, os grupos de oração, o Evangelho em todos os meios de comunicação. Temos o que outras épocas não tiveram no passado, o que outros grupos sociais não têm no presente. Este privilégio traz anexa uma responsabilidade. Ninguém admire que, neste Evangelho, Jesus faça alusão a uma “sentença” no juízo final.

Orai sem cessar: “Eu te pertenço, salva-me!” (Sl 119,94)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança