12/06/2015

Abriu-lhe o lado… (Jo 19,31-37)

O súbito golpe de lança do centurião romano rasga o peito de Jesus, já morto na cruz do Calvário. O agudo ferro da lança passa entre as costelas, transpassa a pleura e o pulmão, fere o coração. Imediatamente, o resto de sangue e de linfa ali depositados escorre visivelmente: sangue e água.

A tradição da Igreja, registrada em textos e hinos litúrgicos, viu nas duas substâncias os sinais sacramentais da Eucaristia e do Batismo, entendidos como um dom pascal que Jesus Cristo confiava à Igreja.

Não é por acaso que a Liturgia escolhe este Evangelho para a festa do Sagrado Coração de Jesus. Ao celebrar o coração do Crucificado, nós recordamos ao mundo o mistério da Encarnação do Verbo, que assumiu plenamente nossa natureza: um corpo com músculos, ossos e órgãos, capaz de sofrer e sangrar, mas também a sensibilidade, os sentimentos, as angústias próprias dos humanos.

A preciosa devoção ao Sagrado Coração serve para nós como vacina contra um tipo de cristianismo aéreo, abstrato, angelical, predisposto a ignorar o realismo da natureza humana, tão incômoda aos gnósticos quanto as chagas do Ressuscitado… É também uma imagem palpável a recordar-nos permanentemente a face histórica da Encarnação do Verbo.

Em sua Encíclica “Haurietis Aquas” [15/05/1956], sob o culto do Sagrado Coração de Jesus, o Papa Pio XII escreveu:

“Nada proíbe que adoremos o coração sacratíssimo de Jesus Cristo, enquanto é participante, símbolo natural e sumamente expressivo daquele amor inexaurível em que ainda hoje o divino Redentor arde para com os homens. Mesmo quando já não está submetido às perturbações desta vida mortal, ainda então ele vive, palpita, e está unido de modo indissolúvel com a Pessoa do Verbo divino, e, nela e por ela, com a sua divina vontade.”

Para Pio XII, o coração do Salvador “reflete a imagem da divina pessoa do Verbo divino”. Não apenas um símbolo, mas “como que um compêndio de todo o mistério da nossa redenção”.

Não é preciso ser teólogo para compreender este profundo mistério. O povo simples se alegra e se comove diante desta evidência: nosso Deus se fez humano como nós. Nosso Deus tem um coração. Seu amor por nós não é algo aéreo, abstrato, mas é um amor encarnado, uma torrenteque corre de seu lado aberto.

Não admira que este tema – o coração de Jesus – tenha comovido tantos místicos e inspirado tantos artistas. Deus tem um coração…

Orai sem cessar: “Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus.” (Zc 13,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.