A saudação de Maria… (Lc 1,39-45)

A cena deste Evangelho é conhecida como a “Visitação” pelos cristãos do Ocidente. Em geral, destaca-se a prontidão de Maria de Nazaré em pôr-se a caminho até Ein-Karim [a fonte de Karim], onde morava sua velha parenta Isabel, que o Anjo citara como “sinal” no momento da Anunciação. Alguns pregadores preferem insistir no “serviço” prestado por Maria; outros olham mais alto e realçam sua intenção de “verificar” o sinal que ela recebera.

Já os cristãos das Igrejas orientais preferem chamar esta cena de “saudação” [em grego, “aspasmós”]. De fato, ocorre algo fora do comum quando Maria se aproxima de Isabel e diz a saudação habitual de Israel: “Shalom!” A reação visceral produzida em Isabel, no sexto mês de gravidez, corresponde a um “batismo no Espírito Santo”, com reflexo até mesmo no feto que ela transportava. Isabel confessa: “Tão logo a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança palpitou de exultação em meu ventre”.

Acontecia nesse momento o que Gabriel prenunciara a Zacarias no santuário, na hora do incenso, a respeito de João Batista: “O Espírito Santo o encherá desde o ventre de sua mãe”. (Lc 1,15)

Creio não exagerar se afirmo que era esta a missão principal de Maria junto a Isabel e João Batista. Não tanto lavar as fraldas do menino que iria nascer, mas passar para mãe e filho a plenitude do Espírito que habitava Maria em plenitude, a ponto de Gabriel a chamar de “agraciada”, “cheia de graça” [kecharitomène].

O próximo passo é reconhecer a importância de levar ao próximo uma palavra portadora do Espírito (pneumatófora), deixando extravasar do próprio íntimo uma parcela da vida espiritual alimentada na fé. Por oposição, considerar a inutilidade de acumular muitas palavras em qualquer pregação, se estas não forem carregadas do dinamismo que só o Espírito Santo nos pode conferir.

Uma presença. Um abraço. Uma saudação. E eis que tudo se renova. Abrem-se as portas do céu e uma inundação do Espírito vem inflar Isabel e a criança. Agora, cheio do Espírito, João poderá ser essa ponte entre as duas Alianças, essa espécie de charneira entre o Antigo e o Novo Testamento.

Sem essa iluminação divina, Isabel, a estéril que recebeu graça, jamais seria capaz de reconhecer na jovem Maria a Mãe de Deus ou, nas palavras de uma israelita, a mãe do meu Adonai, a mãe do meu Senhor.

Orai sem cessar: “Por amor a meus irmãos, direi: ‘Paz para ti!’” (Sl 122,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.