29/05/2015

A minha casa… (Mc 11,11-26)

Como uma cunha cravada no tronco, a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões do Templo de Jerusalém também se encrava entre a maldição da figueira (11,11-14) e a verificação de que a árvore havia morrido de um dia para o outro (11,20-21). A ausência de frutos parece mortal…

Ora, o Templo sobre o Monte Sião fora erguido como “o” lugar dedicado à adoração do Senhor. Em seu compartimento sagrado – o Santo dos Santos – guardava-se a Arca da Aliança com os três testemunhos da presença de Deus no meio do Povo Escolhido: as duas tábuas da Lei, a vara de Aarão que florescera e uma amostra incorruptível do maná (cf. Hb 9,4).

Quando algo sagrado é desviado de sua função, estamos diante de uma profanação. Este foi o motivo da cólera de Jesus, ao entrar no pátio do Templo e contemplar a cena insuportável: o burburinho da troca de moedas, do comércio de cabeças de gado, tudo isto somado ao mau cheiro do estrume animal e do sangue das vítimas. A Casa do Pai não merecia aquela degradação…

O espaço sagrado reservado para salmos e cânticos, o lugar de oração e jejum, o oásis espiritual para a glória de Deus e a adoração humana fora degenerado em um misto de mercado e caravançará. Como pano de fundo, a sede de lucro, a oportunidade de “faturar” com as devoções populares, como se verifica ainda hoje em locais de peregrinação.

O comércio era controlado pelas famílias dos saduceus, nas quais eram escolhidos os sumos sacerdotes. O poder religioso aliava-se ao político e econômico. Alijava-se Deus de seu pedestal em benefício da avareza humana.

Ora, a verdadeira “casa de Deus” não são os edifícios de pedra e tijolo (cf. At 7,48; 17,24). O autêntico “lugar” onde o Senhor quer habitar é o nosso coração. Nós somos o verdadeiro Templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19-20). De nada adianta embelezar nossas igrejas e capelas se nosso coração ainda é lugar de comércio com os demônios…

Daí a voz de Mestre Eckart [1260-1328]: “Se queres ser absolutamente vazio de todo esse comércio, de modo que Deus te deixe nesse templo, é preciso que faças tudo que és capaz, em todas as tuas obras, e vises tão somente à glória de Deus. Apenas se ages assim, tuas obras serão espirituais e divinas, pois nem todos os mercadores foram expulsos do Templo, e Deus ali não mora exclusivamente se o homem não pensar somente nele”.

Orai sem cessar: “Senhor, gosto da casa onde moras!” (Sl 26,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.