A ira de Deus… (Jo 3,31-36)

Sim, são tempos de misericórdia. Jesus é Cordeiro manso, que se entrega em total mudez. Ele recusa as duas espadas (cf. Lc 22,38) que poderiam defendê-lo. É, porém, grave engano concluir que o Senhor misericordioso seria um Deus injusto e neutro diante do mal.

Este Evangelho faz referência “à cólera” de Deus (no grego original,  – orgé) que permanece suspensa sobre aquele que se recusa deliberadamente a crer no Salvador que se revela. É natural que alguém se sinta chocado ao ver que a Escritura atribui a Deus aquilo que aprendemos ser um pecado capital: a ira ou cólera. E realmente seria motivo de escândalo se esta “ira” fosse apenas a atitude de uma divindade descontrolada que decide pela agressão e pela vingança, e não um método de correção. Parece antes uma visão típica do Antigo Testamento, anterior à revelação da Paternidade divina, apresentada a nós por Jesus Cristo.

De fato, o Primeiro Testamento registra esta possibilidade. Por exemplo, no Livro dos Números (11,1): “Ora, o povo elevou uma queixa aos ouvidos de Yahweh e Yahweh a ouviu. A sua ira se inflamou e o fogo de Yahweh ardeu entre eles e devorou uma extremidade do acampamento”. Em nota, a Bíblia de Jerusalém comenta: “A ira de Deus, que toma frequentemente a forma de castigo, é um aspecto de sua santidade absoluta (Lv 17,1ss), de seu ‘ciúme’ (Dt 4,24), que não tolera nenhuma resistência ao seu desígnio, em particular nenhuma infidelidade à aliança (Nm 11,33; 12,9; Dt 1,34; 6,15; 9,8; 2Cr 19,2; Is 5,25).

Ao longo da história, a intercessão dos patriarcas (como Moisés em Ex 32,11ss), a pregação dos profetas (como Jonas em Jn 3,4-10) e a oração dos santos (Ap 5,8) mantiveram suspensa a mão do Juiz. Este “machado” (cf. Mt 3,10) permanece junto à raiz que ainda se recusa a dar frutos de penitência e conversão. Por isso, João Batista invectiva os fariseus e saduceus: “Quem vos sugeriu fugir para longe da cólera que está para vir? Dai, pois, um fruto digno de conversão!” (Mt 3,7)

Parece deboche afirmar que Deus é “bonzinho” e perdoará a qualquer tipo de pecado, mesmo que seja o desprezo pelo Salvador e a recusa da Graça (aliás, exatamente o pecado contra o Espírito Santo, imperdoável, conforme Mt 12,31-32). Exatamente na Segunda Vinda, no grande Dia do Senhor, ver-se-á a manifestação total e definitiva dessa cólera sem limites. Para alguns, melhor seria não ter nascido (cf. Mt 26,24; Lc 17,2).

Ah! Como é grande a cólera do Amor desprezado!

Orai sem cessar: “Acalma, Senhor, a tua ira contra nós!” (Sl 85,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.