Desde alguns recentes anos, a Igreja Católica no Equador protagoniza uma queda de braço com o governo. Até agora o saldo tem sido negativo para a Igreja. Pouco tempo atrás, a nova constituição elaborada pela Assembleia Constituinte foi a referendo popular para ser aprovada. De um lado o governo fazendo campanha pela aprovação. De outro, a oposição e a Igreja católica em campanha para reprovação. Com exceção de umas poucas dioceses que se mantiveram neutras, e outras a favor, a maioria se posicionou contra, conforme a orientação da Conferência Episcopal. Passeatas, panfletagem, discussões e tudo mais que se podia fazer se fez por parte da Igreja para que a constituição não fosse aprovada. Motivo: alguns parágrafos, que segundo a interpretação eclesiástica atentavam contra valores lapidares da moral católica, abririam brechas inaceitáveis. Resultado: a nova constituição foi aprovada por uma esmagadora maioria da população e a Igreja saiu desmoralizada.
De lá para cá a relação entre Igreja e Estado vem estremecendo paulatinamente. O governo, ainda que com sua populariadade diminuída, tem força e vem dando rasteiras na Igreja, que aqui sempre se mostrou muito reacionária, noves fora, Leonidas Proaño, entre outros. Agora chegamos ao segundo round. Un projeto de lei que tramita no Congreso, propõe secularizar de maneira mais veemente o Estado. Em outras palavras, quer explicitar não somente no papel mas na prática, uma radical separação entre religião e Estado. No fundo, o projeto (de mais de 40 páginas) propõe que religião (e aqui religião equivale a Igreja Católica) seja praticada somente no âmbito privado.
Esse tipo de lei já é mais que conhecida, pois vários Estados modernos, que outrora faziam parte da cristandade católica com toda sua pujança, já adotaram como parte de suas Constituições. Na América Latina o caso mais emblemático é o do México, que “laicizou” radicalmente o Estado, embora o povo mexicano continuasse sendo altamente religioso. Agora chegou a vez do Equador passar por esse processo que normalmente é muito desgastante. O debate ainda não ganhou as ruas. Está nas altas esferas legislativas, no executivo e na hierarquia católica, que como era de se esperar, se encontra de orelha em pé. De um lado um projeto de lei quer regulamentar a prática religiosa do povo. Do outro a Igreja quer manter seu direito de praticar publicamente a sua fé através das manifestações típicas do catolicismo, sobretudo as de cunho devocional. O debate promete ser forte e acalorado.
Na minha humilde opinião, penso que o momento não deve descambar para a beligerância. Ambas as partes, Governo e Igreja podem e devem dialogar. A Igreja, no entando, é a que deve dar exemplo, ou seja, aproveitar esse momento para mostrar seu rosto. Nesse ponto nos encontramos fragilizados, pois o rosto da Igreja no Equador tem sua face historicamente deformada pelo autoritarismo, pelo clericalismo, pela conivência com o poder. O recentíssimo , doloroso e escandaloso episódio do Vicariato Apostólico de Sucumbios, e a humilhação pública imposta ao seu bispo por parte da própia Igreja, mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer.
Ao invés do confronto, inclusive público como ocorreu antes, o momento seria oportuno para dar testemunho de Jesus Cristo. Para isso somos Igreja: para amar e dar testemunho do amor. Evidentemente que como cidadãos e cristãos, todos temos direito de praticar nossa fé em âmbito público e não somente encerrados dentro das Igrejas e das casas, ou pelo menos lutar por isso. Mas essa prática tem que ser preconizada pela coerência e não pela intolerância. Surtiria muito mais efeito se pudéssemos ser praticantes de uma fé, como foi Francisco de Assis, Teresa de Calcutá, Charles de Foucauld, Vicente de Paulo, Narcisa de Jesus, João XXIII, Hélder Câmara, Oscar Romero, Leonidas Proaño, só para citar alguns. Não há legislatura que não reconheça tamanhos exemplos de amor e dedicação ao próximo como algo positivo a ser praticado tanto público como privadamente.
O debate já está na nossa porta. A Igreja no Equador tem mais uma oportunidade de mostrar-se em consonância com o seu Mestre sendo profética e fraterna como Ele. Esperemos para ver, em oração e na caridade mútua.