A fim de fazer amigos… (Lc 16,9-15)

Jesus acaba de narrar a parábola do “gerente esbanjador” que, com grande astúcia, dá uns “golpes” com os bens do patrão para fazer amigos que o acolham após sua demissão. Para nós, ocidentais, a primeira reação é de espanto (ou de escândalo!) quando Jesus elogia a “sabedoria” do espertalhão para garantir seu futuro. Ele fala em “fazer amigos com o Mammon (o dinheiro) da injustiça.

É óbvio que Jesus, um oriental, não pretende estimular esse universo sórdido de barganhas e propinas – tão em moda em nosso século -, mas se vale do exemplo para, em forma de contraste, lembrar que as coisas iriam bem melhor se os filhos da luz – aqueles que frequentam igrejas, fazem novenas e promessas etc. – fossem igualmente radicais em sua dedicação às coisas do Reino.

De qualquer modo, ele usou uma expressão muito simpática: “fazer amigos”. Com exceção dos misantropos emburrados, aqueles que costumam ter “cara de poucos amigos”, a maioria das pessoas se esforça por fazer amigos. Este processo de empatia inclui sorrisos e abraços, elogios e mensagens, festas partilhadas, convites e presentes. Mas não é disso que Jesus devia estar falando…

Em outro Evangelho (Mt 25,31ss), o Mestre fala de outros “amigos” com os quais, na verdade, Ele mesmo se identifica por completo. São os que têm fome e sede, os enfermos e os presidiários, os migrantes e os sem-camisa. A amizade dessa gente – tão numerosa no planeta, tão acessível a todos nós – foi procurada por certas pessoas que chegaram ao ponto de lhes dedicar a própria vida.

Penso em São Vicente de Paulo, amigo dos condenados às galeras. Penso em Madre Teresa de Calcutá, amiga dos aidéticos. Penso, ainda, em Damião de Veuster, amigo dos leprosos. Penso no Pe. Pierre, amigo dos catadores de lixo. Penso em Dom Bosco e José de Calasanz, amigo das crianças pobres. Penso, enfim, em João de Deus e Camilo de Lélis, amigos dos doentes.

Nós poderíamos estender esta lista muito além deste espaço, pois o Espírito de Amor, ao longo dos séculos, despertou em muitos corações esse impulso amistoso de fazer da própria vida um dom para aqueles que, em geral, nada poderiam dar em troca. Deve ser por isso que, hoje, nós os chamamos de… santos…

Não é estranho como o Evangelho é simples? Não precisamos acessar nenhum mistério, não temos necessidade de nos aprofundar em qualquer gnose esotérica. Basta amar. Basta dar a vida pelo outro. Afinal, como disse o mesmo Jesus, “ninguém tem amizade maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”. (Jo 15,13)

Orai sem cessar: “Por amor de meus amigos, pedirei a paz para ti…” (Sl 122,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.