A casa se encheu do perfume… (Jo 12,1-11)

Uma cena doméstica. Jesus visita os amigos de Betânia, nas encostas de Jerusalém: Lázaro, Marta e Maria. A tradição de hospitalidade oriental incluía três gestos (cf. Lc 7,44-46): o ósculo de boas-vindas, a lavagem dos pés do visitante (geralmente feita por um escravo ou servidor) e a unção dos cabelos com óleo perfumado.

Imprevistamente, porém, a própria Maria põe-se a ungir os pés de Jesus. E o faz com um frasco de precioso nardo, caríssimo aroma importado da Índia. Um “desperdício” que faz cintilar os olhos de Judas Iscariotes, expert em contabilidade: “Por que não se vendeu por 300 denários para dar aos pobres?” Ou seja, o equivalente a 300 dias de trabalho de um operário da época!

Olhos profanos veriam a irmã de Lázaro no papel de um escravo. Os olhos de Jesus percebem o amor latente no gesto da mulher. “A vocação fundamental do discípulo é a de servir”, diz Claude Rault, Bispo do Saara argelino. “Não como escravo, mas servir por amor à humanidade, apaixonado por ela. Esta é a condição de servidor que Jesus escolheu para viver desde o início de sua missão.”

Bem que o Inimigo tentou desviá-lo desse caminho, oferecendo-lhe os atalhos da autossuficiência, da glória e do poder (cf. Mt 4). Mas Jesus se manteve todo o tempo como aquele que serve: curando o enfermo, tocando os intocáveis, anunciando o amor do Pai e, afinal, dando o próprio sangue para nos salvar.

Isto, sim, é desperdício! Ele não derramou perfumes, derramou seu sangue. Doou sua vida, nada guardou para si. Por isso mesmo, ele soube acolher o gesto inesperado de Maria que parecia transpor os limites do bom senso.

Aliás, se existe uma coisa que os apaixonados desconhecem, é exatamente o tal bom senso. As coisas ponderadas. Os passos calculados. A censura prévia. O amor mergulha, salta no escuro, se entrega. Amor sem medidas…

Mas todo gesto de amor tem consequências. Como bem registra o evangelista João, “toda a casa ficou cheia do perfume”. Sim, o amor irradia, se espalha, comunica. Mesmo depois que o convidado se retirasse, a casa permaneceria marcada pela fragrância do nardo. Uma casa vazia de amor acaba cheirando mal. Ao contrário, se o amor se põe a serviço, logo se percebe no ar.

De volta ao Evangelho, Jesus soube dar sentido pascal ao gesto de Maria: “É para o dia de meu sepultamento que ela guardou o perfume”. Logo a seguir, Jesus será preso, crucificado e morto. O amor de Maria já o preparou para o sepulcro…

Como podemos encher a nossa casa?

Orai sem cessar: “O odor dos teus perfumes supera todos os aromas!” (Ct 4,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.