6/09/2015 – E Jesus gemeu… (Mc 7,31-37)

Como é comovente perceber a forma como transparece nos santos Evangelhos a humanidade do Filho de Deus nascido de Mulher! Aqui e ali, discretamente, no tecido da narrativa, Jesus tem fome (Mt 4,2), se cansa (Jo 4,6), se encoleriza (Jo 2,15), chora (Lc 19,41) e… geme…

Nesta passagem de Mc 7,34, o verbo do texto grego original é “estenaxen”, isto é, “gemeu”, denunciando um movimento profundo de toda a pessoa do Mestre no instante em que se dispõe a curar o surdo-mudo. Não se trata apenas de dizer alguma palavra mágica, mas de recorrer ao poder do alto em uma atitude totalizante, que inclui os olhos erguidos ao céu e um gemido que brota da carne mortal.

Para Jean Valette, “é preciso ir mais longe na reflexão sobre este gemido de Jesus. O verbo ‘gemer’ encontra-se raramente no Novo Testamento, mas em passagens importantes e, em particular, na Carta aos Romanos e na 1ª Carta aos Coríntios, que parecem passagens esclarecedoras para nosso propósito. Nelas, Paulo fala do gemido dos fiéis e de toda a Criação à espera da redenção definitiva (Rm 8,22), mas também do Espírito que intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

O gemido de Jesus assim se compreende como o grito de sua carne e de seu espírito diante do poder do mal e do preço que deverá pagar pela vitória. O gemido de Jesus diante desse homem cativo que o mal mantém acorrentado, e que representa todo um povo e, talvez, o mundo todo, é ao mesmo tempo o eco da dor dos homens e da dor de Deus. Jesus parece estar naquela viragem de sua existência e de seu ministério em que ele acaba de descobrir que a paixão dos homens e a paixão de Deus se encontram e se unem em sua própria pessoa para conduzi-lo até a cruz.”

Não creio exagerar se entendo que, para Jesus, curar dói. Ele não se diverte nem se exibe como um curandeiro popular, mas se compromete organicamente com os enfermos que cruzam seu caminho. Em mais de uma passagem, os evangelistas anotam em Jesus um movimento visceral ao curar um doente, um “frio na barriga”, como em passagens com a forma verbal “esplagnísthe” (cf. Mt 14,14; Mc 6,34, passim) ou ainda em Jo 11,38, logo antes de chamar Lázaro de volta à vida, quando Jesus “vibra como uma lâmina de metal” (cf. gr. embrinómenos).

Ninguém se admire, pois, de que assumir a missão de Jesus traga sofrimentos. O pastor geme com suas ovelhas…

Orai sem cessar: “É eterna a misericórdia do Senhor!” (Sl 103,17)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.